Execução Fiscal · Guia Prático

Saí da sociedade e a Fazenda me incluiu na execução: posso ser cobrado?

Saiu da sociedade e foi incluído na execução fiscal? Entenda os Temas 962, 981 e 444 do STJ e quais documentos podem fundamentar a defesa.

Para o Leigo · Execução Fiscal 6 min de leitura

Quem se retirou regularmente antes da dissolução irregular e preenche as condições do Tema 962 do STJ não responde pelo redirecionamento fundado nesse encerramento posterior. A proteção exige que o ex-administrador não tenha praticado os atos de excesso de poderes ou infração considerados na tese nem causado a dissolução. O Tema 981, por sua vez, permite alcançar quem administrava na data da dissolução irregular, ainda que não exercesse a gestão quando surgiu a dívida.

O que é dissolução irregular? — Súmula 435

A dissolução irregular pode ser presumida quando a empresa deixa de funcionar no endereço fiscal sem comunicar a mudança aos órgãos competentes. Em termos simples, é a situação em que fecha as portas ou abandona o endereço sem a comunicação devida, nos termos da Súmula 435 do STJ. O encerramento regular da empresa é outra situação e não deve ser confundido com essa presunção.

A presunção pode ser confrontada com documentos. Por isso, a defesa deve examinar o que foi utilizado para sustentar o encerramento: uma certidão de oficial de justiça, a situação cadastral, o histórico de endereços ou outros elementos apresentados.

É necessário conferir o que foi constatado, em qual data e em qual local.

Quem administrava na data da dissolução irregular? — Tema 981

Quando o redirecionamento se funda na dissolução irregular ou em sua presunção, o Tema 981 permite alcançar quem tinha poderes de administração naquela data, mesmo que não administrasse a empresa quando ocorreu o fato gerador do tributo.

Isso muda a pergunta que deve orientar a defesa. Saber quem era sócio no período da dívida é apenas uma parte da análise. É preciso distinguir participação societária, poderes de administração e a data do fato utilizado para justificar a cobrança pessoal.

Uma alteração contratual pode mostrar essas diferenças. Conforme a controvérsia, outros documentos também serão necessários para reconstruir a gestão.

Quem saiu regularmente antes pode responder? — Tema 962

O Tema 962 afasta o redirecionamento fundado em dissolução irregular contra quem se retirou regularmente antes dela, sem ter praticado os atos de excesso de poderes ou infração considerados na tese e sem ter causado o encerramento irregular posterior.

Essa proteção também alcança a situação em que a pessoa exercia a gerência quando ocorreu o fato gerador do tributo. Portanto, a dívida ter surgido durante sua administração não encerra a discussão.

O ponto decisivo é demonstrar que os requisitos da tese estão presentes. A data registrada da retirada precisa ser confrontada com o fundamento concreto do pedido de redirecionamento.

Quais datas e documentos ajudam a esclarecer a responsabilidade?

Uma linha do tempo útil reúne:

  • O período de participação na sociedade e os períodos em que você tinha poderes de administração.
  • A retirada, sua formalização e o registro da alteração societária.
  • Os fatos utilizados para caracterizar a dissolução irregular.
  • A citação da empresa e os acontecimentos posteriores da execução.
  • O pedido da Fazenda para incluir você e a decisão judicial correspondente.

Essa organização evita discutir apenas a data de entrada ou saída enquanto o processo se apoia em outro fato.

O contrato social inicial raramente conta toda a história. As alterações, certidões da Junta Comercial, atos de nomeação e destituição de administradores e comunicações de mudança de endereço podem esclarecer o que ocorreu.

A Fazenda tem prazo para pedir o redirecionamento? — Tema 444

O prazo do redirecionamento é de cinco anos, contado conforme os marcos do Tema 444 do STJ. Ele não começa automaticamente na saída da sociedade: a contagem considera o fato que autoriza a responsabilização, sua relação com a citação da empresa e a atuação da Fazenda.

Se a dissolução irregular é anterior à citação da empresa, a contagem parte da citação. Se ocorre depois, a citação não inicia, por si só, o prazo contra o administrador: o Tema exige identificar o ato inequívoco indicativo do propósito de inviabilizar a satisfação do crédito.

O reconhecimento da prescrição também exige examinar a inércia da Fazenda e os atos concretos praticados para a cobrança. Contar cinco anos a partir de uma única data, sem ler o processo, pode levar a uma conclusão errada.

O artigo sobre prescrição do redirecionamento da execução fiscal ao sócio desenvolve os marcos dessa análise.

Como demonstrar que a saída foi regular?

A alteração contratual registrada e o histórico societário da Junta Comercial são os documentos centrais para comprovar a retirada. Os atos de nomeação e destituição ajudam a delimitar o período de administração.

Se a Fazenda alegar que você continuou administrando depois da saída formal, a defesa também precisa enfrentar essa alegação. Podem ser relevantes procurações, assinaturas autorizadas e outros atos empresariais.

O objetivo é construir uma explicação documentada sobre sua atuação e seu afastamento, com correspondência entre cada alegação e a prova que a sustenta.

O que fazer agora?

Acesse a íntegra da execução e identifique exatamente por que seu nome foi incluído. Confira se você já figurava como responsável na CDA ou se a cobrança foi redirecionada depois.

Se o nome constar do título, leia também o que muda na defesa quando o sócio está na CDA.

Anote os prazos em curso e separe os documentos antes de decidir como responder. O guia de redirecionamento fiscal reúne os fundamentos e as questões processuais.

Havendo bloqueio, a defesa em execução fiscal deve avaliar a constrição e o fundamento da cobrança pessoal. Liberar o dinheiro bloqueado, por si só, não exclui o ex-sócio da execução.

Perguntas rápidas

A dívida surgiu quando eu ainda era sócio. Isso basta para me cobrar?

Ter sido sócio quando a dívida surgiu não basta, por si só, para responsabilizá-lo com base no art. 135 do CTN. Se a cobrança decorre de dissolução irregular, os Temas 962 e 981 exigem relacionar a administração e a retirada à data desse encerramento.

A retirada registrada impede qualquer cobrança posterior?

A retirada regular anterior à dissolução irregular afasta esse fundamento de cobrança quando estão presentes as demais condições do Tema 962. Ela não apaga eventual responsabilidade por atos próprios que tenham outro fundamento legal.

Posso alegar prescrição contando cinco anos da minha saída?

A saída não é o marco automático da prescrição do redirecionamento. Os cinco anos seguem as situações delimitadas pelo Tema 444, considerando a cronologia da citação, do ato que fundamenta a responsabilidade e da atuação da Fazenda.

Adelmar Filho — Advogado
Adelmar Filho
Advogado · Defesa do Executado · ASF Sociedade de Advocacia
Mais de 25 anos de atuação exclusiva em execuções judiciais
Conteúdo de responsabilidade da ASF Sociedade de Advocacia, especializada na defesa de quem enfrenta execuções judiciais.

Contato

O escritório atende casos de defesa do executado em todo o Brasil. O contato pode ser feito pelo WhatsApp ou por e-mail.

Falar com o escritório →